Texto
Entramos em contato tão-somente com
aqueles odores que nós mesmos fabricamos. Ao evitarmos os fedores, perdemos
muitos odores
As cidades, os bairros, as
regiões e os quarteirões sempre tiveram seus cheiros peculiares. Perto de uma
torrefação, o ar é tomado pelo café que torra. A padaria também tinha seu
lugar, assim como nas proximidades das fábricas de biscoitos todos salivávamos.
Cada aposento da casa tinha seu aroma e ainda variava de acordo com o horário.
Desde o portão, íamos sabendo o que havia acontecido durante o dia. Que delícia
o cheiro de casa no dia da faxina. E, às quatro da tarde, quando em quase toda
a casa se fazia bolo, pudim ou biscoito?
Durante 12 anos, fui acordada,
às seis da manhã, pela voz da minha mãe me chamando, pelo cheiro de pão fresco
e pelo aroma do suco de laranja que minha mãe não deixava faltar. O bonde,
movido à eletricidade, era ruidoso, porém inodoro. Quando tomávamos o bonde, os
aromas da casa iam ficando para trás. Quando partia em direção à praça do
Correio, começava o itinerário aromático. Primeiro, o cheiro da padaria da Doze
de Outubro, que invadia o bonde inteiro. Entre a rua Trindade e a rua
Guaicurus, passávamos por um córrego que exalava diferentemente conforme a
chuva ou a seca. Esse córrego tinha seu ponto final no Tietê, a poucos metros
dali.
O aroma seguinte vinha da
Torrefação de Café Tiradentes. A esse paraíso olfativo, que não durava mais que
alguns minutos, seguia-se um vácuo que também não durava muito e que era
substituído pelas ondas de odor fétido e pegajoso das matérias-primas usadas
para a produção de sabão e óleo pelas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo.
O mau cheiro vai rarefazendo
porque aproximamo-nos do parque da Água Branca, cujos estábulos e jardins davam
a impressão de nos mergulhar numa fazenda. Do outro lado da avenida, estava a
madeireira Eucatex, que completava a sensação de fazenda.
Íamos chegando às Perdizes,
bairro residencial onde cada casa tinha suas flores, sua rotina e sua
culinária. Esses aromas individuais perdiam-se no transporte coletivo. Mas, se
fizéssemos o caminho a pé, íamos sentindo o cheiro das roseiras, da calda de
açúcar, da carne assando, do bolo no forno, da baunilha e da canela...
Padarias, pizzarias,
pastelarias e docerias continuam até hoje marcando território. Mas os carros e
os ônibus (os bondes não existem mais) nos isolam dos cheiros da cidade.
Cada itinerário olfativo é uma
riqueza de nossas memórias. Quando descia a pé do Mackenzie até o largo Santa
Cecília, passava pela Santa Casa, que exalava álcool e éter. Outro dia passando
por lá não encontrei aquele cheiro. Terei perdido o olfato? Ou a desinfecção é
feita com outras substâncias?
Hoje, são tantas as fontes de cheiro que até
damos o nome de poluição, que é coisa ruim. Os itinerários olfativos devem
continuar a existir, mas é mais difícil reconstituí-los. Dos trens a vapor
vinha o odor de madeira queimada. As carroças e charretes espalhavam o cheiro
do suor do animal e do carroceiro. Tudo misturado com o cheiro de esterco. A
partir dos anos 60, a indústria automotiva tirou o bonde, a carroça e a
charrete das ruas, deixando o ar inodoro...
Nome completo:
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Ano:________Turma:________________Data:________________________
Responda de acordo com o texto
1 – A pessoa que, no texto
acima, descreve os cheiros dos espaços percorreu sabia o que estava acontecendo
nos diversos lugares por onde passava? Por quê?
2 - Descreva com detalhes o lugar em que você
mora e o caminho por onde passa da sua casa até a escola. Não se esqueça de
citar os cheiros e as sensações que você sente nesse percurso.
No livro consulte a
página, 22

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