Aroma e cheiro que entram pelo nariz

                                                        Texto  

 De: ANNA VERONICA MAUTNER

Entramos em contato tão-somente com aqueles odores que nós mesmos fabricamos. Ao evitarmos os fedores, perdemos muitos odores

As cidades, os bairros, as regiões e os quarteirões sempre tiveram seus cheiros peculiares. Perto de uma torrefação, o ar é tomado pelo café que torra. A padaria também tinha seu lugar, assim como nas proximidades das fábricas de biscoitos todos salivávamos. Cada aposento da casa tinha seu aroma e ainda variava de acordo com o horário. Desde o portão, íamos sabendo o que havia acontecido durante o dia. Que delícia o cheiro de casa no dia da faxina. E, às quatro da tarde, quando em quase toda a casa se fazia bolo, pudim ou biscoito?

Durante 12 anos, fui acordada, às seis da manhã, pela voz da minha mãe me chamando, pelo cheiro de pão fresco e pelo aroma do suco de laranja que minha mãe não deixava faltar. O bonde, movido à eletricidade, era ruidoso, porém inodoro. Quando tomávamos o bonde, os aromas da casa iam ficando para trás. Quando partia em direção à praça do Correio, começava o itinerário aromático. Primeiro, o cheiro da padaria da Doze de Outubro, que invadia o bonde inteiro. Entre a rua Trindade e a rua Guaicurus, passávamos por um córrego que exalava diferentemente conforme a chuva ou a seca. Esse córrego tinha seu ponto final no Tietê, a poucos metros dali.

O aroma seguinte vinha da Torrefação de Café Tiradentes. A esse paraíso olfativo, que não durava mais que alguns minutos, seguia-se um vácuo que também não durava muito e que era substituído pelas ondas de odor fétido e pegajoso das matérias-primas usadas para a produção de sabão e óleo pelas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo.

O mau cheiro vai rarefazendo porque aproximamo-nos do parque da Água Branca, cujos estábulos e jardins davam a impressão de nos mergulhar numa fazenda. Do outro lado da avenida, estava a madeireira Eucatex, que completava a sensação de fazenda.

Íamos chegando às Perdizes, bairro residencial onde cada casa tinha suas flores, sua rotina e sua culinária. Esses aromas individuais perdiam-se no transporte coletivo. Mas, se fizéssemos o caminho a pé, íamos sentindo o cheiro das roseiras, da calda de açúcar, da carne assando, do bolo no forno, da baunilha e da canela...

Padarias, pizzarias, pastelarias e docerias continuam até hoje marcando território. Mas os carros e os ônibus (os bondes não existem mais) nos isolam dos cheiros da cidade.

Cada itinerário olfativo é uma riqueza de nossas memórias. Quando descia a pé do Mackenzie até o largo Santa Cecília, passava pela Santa Casa, que exalava álcool e éter. Outro dia passando por lá não encontrei aquele cheiro. Terei perdido o olfato? Ou a desinfecção é feita com outras substâncias?
Hoje, são tantas as fontes de cheiro que até damos o nome de poluição, que é coisa ruim. Os itinerários olfativos devem continuar a existir, mas é mais difícil reconstituí-los. Dos trens a vapor vinha o odor de madeira queimada. As carroças e charretes espalhavam o cheiro do suor do animal e do carroceiro. Tudo misturado com o cheiro de esterco. A partir dos anos 60, a indústria automotiva tirou o bonde, a carroça e a charrete das ruas, deixando o ar inodoro...

 

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                             Responda de acordo com o texto

1 – A pessoa que, no texto acima, descreve os cheiros dos espaços percorreu sabia o que estava acontecendo nos diversos lugares por onde passava? Por quê?

 

 

2 -  Descreva com detalhes o lugar em que você mora e o caminho por onde passa da sua casa até a escola. Não se esqueça de citar os cheiros e as sensações que você sente nesse percurso. 

 

 

 

                                     No livro consulte a página, 22


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